terça-feira, 11 de março de 2014

A dor faz florescer a solidariedade

          Desde o ano passado tenho feito várias cirurgias, e como não tenho mais plano de saúde, venho fazendo todas pelo SUS, em hospitais do governo. Como minha vida sempre foi uma sucessão de acidentes e hospitalizações desde os vinte anos de idade, tenho uma vasta experiência no assunto. E sinto a diferença na relação entre as pessoas agora que não tenho mais plano de doença e convivo com vários tipos de pessoas e suas dores em leitos e enfermarias de hospitais. Sempre achei que nada na vida vem por acaso, não acredito em coincidências e penso que os percalços que Deus coloca em nossos caminhos são oportunidades de aprendizado que não podemos nunca deixar passar batido.
         Nos quartos de hospitais particulares, me sentia sozinha e sem ter com quem compartilhar minha vivência. Nos hospitais públicos, nas enfermarias divididas com outros semelhantes partilhando suas dores e angústias descobri o quanto a dor faz florescer o amor e a solidariedade. 
          Hoje entendo que somos muitos os que percorremos os caminhos da dor e do medo da morte e do sofrimento e sinto que meu coração se abre para compreender, ser solidário e compartilhar o que possuo, sobretudo meu amor e minha esperança.
         Numa enfermaria de hospital público, convivi com pessoas que torciam por mim, que dividiam comigo alegrias, esperanças dores e cuidados e conseguíamos ter sonhos e até mesmo rir muito junto. E fui descobrindo o sentido, a esperança e a riqueza espiritual e humana que nos oferece um momento como este.
         Aprendi que a dor faz florescer o amor e o sofrimento faz reluzir a solidariedade, a bondade e a ternura que as pessoas carregam dentro de seus corações, e cria vínculos mais fortes de comunhão, de fraternidade e de amizade.
          E descobri acima de tudo, que muitas vezes uma pessoa de origem humilde, sem instrução, carrega dentro de si um tesouro enorme de sabedoria para compartilhar.
          Fiz amigos, amigos de verdade, que estavam ali irmanados, torcendo uns pelos outros, dividindo suas angústias e suas dores, suas sabedorias e vivências. E não abro mão de levar ás últimas consequências estas trocas de amor e de solidariedade que continuo descobrindo a cada vez. São tesouros a ser guardados em esconderijos secretos dentro da alma, sem preço pois sua validade é muito maior do que qualquer dor que guardo em minha alma, todas as mágoas do meu coração.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Sem perder a ternura jamais

          Ultimamente tenho me surpreendido com duas coisas: a velocidade com que o tempo está passando e o fato da grande maioria das pessoas estarem preocupadas com seu próprio umbigo, não se dando ao trabalho de olhar para os lados e ver as necessidades dos seus semelhantes.
          E não é só o descaso, a falta de solidariedade, mas muitas vezes a agressividade, a falta de amor, de ternura e até de respeito. Ontem peguei um táxi que estava parado em fila dupla em minha rua e quando fui entrar esbarrei com a porta no carro que estava estacionado. O taxista, um senhor que já tinha sido extremamente indelicado com meu filho e meu neto, que me acompanhavam, partiu pra cima de mim como se fosse o dragão da maldade, dizendo que eu tinha estragado o carro, que eu deveria ter cuidado, etc, etc.
         Eu, que não estou aturando nenhum tipo de agressividade ou falta de delicadeza, pedi desculpa, disse que tinha sido involuntário, mas que eu não toleraria que ele falasse comigo daquela maneira. E perguntei: o senhor não vê como os tempos estão mudando, não se toca de ter um pouco mais de solidariedade e respeito pelo próximo? Eu sou uma senhora, de cabelos grisalhos, o senhor não conhece a minha história e eu não dou a ninguém o direito de me tratar com falta de delicadeza, com grosseria. E lembrei a ele que estava me prestando um serviço, que eu estava pagando, e devíamos - no mínimo - manter uma relação de cordialidade.
       E assim vou observando nos mínimos detalhes, como as pessoas estão grosseiras, egoístas, como a barbárie vai se instalando e ninguém se dá conta de que a mudança está vindo aí, quem não se tocar e mudar sua atitude agora, vai ter que responder muito em breve por tudo isto. Se não pode pensar no próximo, pense em si próprio e nas consequências de seus atos. Observo como a humanidade evoluiu tanto em termos de desenvolvimento científico, econômico, mas tão pouco em termos espirituais. O homem das cavernas está presente à flor da pele, prestes a saltar na primeira oportunidade e partir para a agressão.
          Tivemos um profeta, um louco visionário que circulava pelas ruas do Rio vestido com uma bata branca e com longas barbas e cabelos brancos - conhecido como o Profeta Gentileza - que escrevia pelos muros e viadutos da cidade, e criou uma frase que ficou famosa e virou até estampa de camiseta: Gentileza gera gentileza.
          É preciso refletir nisto e prestar atenção nos sentimentos de nosso semelhante, sou caroneira da minha rua, onde não circula ônibus, e quando me perguntam se não tenho medo, respondo que quando tiver medo do meu semelhante, estará na hora de cair fora, de morar no mato.
          Os tempos estão céleres, o bicho está pegando geral, e as pessoas não estão se tocando das mudanças, nada sutis, que veem ocorrendo. Está na hora de acordar, de ser solidário, de mudar a atitude em relação aos outros, à natureza e aos animais, ou será tarde demais. Quem não se tocar vai dançar, ou como diz uma antiga letra de música: quem contrariar as leis do Cosmos, não vai dançar, já dança ao contrariar. É preciso ir à luta, sim, mas sem perder a ternura jamais.